sábado, janeiro 28, 2006
Beethoven
Curiosamente estava ontem a desfolhar o Diário I de Miguel Torga e dei com isto:
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Leiria, 15 de Fevereiro de 1940 — Este Beethoven mete-me medo. Ele, e o Miguel Ângelo, e o Shakespeare, e o Dostoievsky, e o Velasquez, são a meus olhos poderes mágicos e terríveis, a quem bastou carregar as sobrancelhas, como Júpiter, para sair um relâmpago de música, escultura, teatro, romance e pintura.
Vai-se a um concerto. E muito embora a gente sinta, a ouvir os outros, que está num reino maravilhoso, permanece calmo. Mas chega a vez do grande surdo. O pianista dá a primeira martelada no teclado, e qualquer coisa de sobrenatural surge logo. O andamento prossegue. E só as paredes não estremecem, não se arrepiam, não ficam possuídas de pavor, poque são insensíveis.
É uma beleza cósmica, de raios e trovões, uma beleza dada por um Deus que viveu na terra por engano.
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